Chiasmus: Philosophy and Literature / Literatura e Filosofia


Zelita (Vieira)
April 27, 2008, 6:22 pm
Filed under: Contos/ Short Stories

No 25 de Abril tinha uma unha encravada. A minha irmã telefonou à tarde, com a revolução na boca, que até que enfim, que ia prá a rua com o marido e as duas miúdas, que já tinham os cravos, mas eu desculpei-me, a unha, ela via bem, não podia ser, manco só os atrapalhava. Sabe que uma unha encravada muda a vida duma pessoa. Na altura, já não saía prá bica, depois do jantar, e tinha acabado com o cinema aos Sábados porque o pé se me inchava se tinha que andar até à avenida. Mesmo pra ir e vir todos os dias prós os correios via-me aflito e assim, olhe, ouvia rádio e … Como arranjei isto da unha? Pergunta bem. Foi tudo por causa da Zelita.

Conheci a rapariga dois anos depois que o Salazar se foi, amor à primeira vista. Estava eu numa matiné e ela senta-se ao meu lado, com uma amiga, saia e casaco, penteado da moda, parecia uma senhora. Eu olhava mais para ela do que para o filme, uma porcaria com cóbóis, e no intervalo meti conversa. No Sábado seguinte fomos à Brasileira, pró chá, e uma coisa leva a outra, ficámos namorados. Estivemos pra casar, imagine o senhor, ela e eu. Andámos nisto quase dois anos. Ela trabalhava numa loja de tecidos ali na Rua dos Fanqueiros, perto dos correios, e muitas vezes almoçávamos juntos ou ia buscá-la à saída e levava-a a casa. Ainda lá está, a loja, a Zelita é que não, coitada. O que aconteceu? Sabe, a Zelita era muito de esquerdas… Não, não aponte isto, olhe que ela era boa rapariga. Mas enfim, órfã, alugava um quarto numa casa com outras, isto das más companhias… Eu bem a avisei mas ela, em se falando da guerra, vinha logo com democracias, com a Rússia. E eu? Eu nada, mudava de assunto, dizia-lhe pra ter juízo, pra não se meter no que não devia. Não teve sorte.

Mas contava-lhe eu da unha. Isto começou devagarinho, eu a pensar que era o sapato apertado e quando dou por ela tinha o dedo grande que era um trambolho. Por isso fiquei em casa no 25 de Abril. Ora, escreva aí, fiquei por causa da unha, que já me andava a doer há quase três meses, que até tive que comprar sapatos novos, um número acima, pra poder ir trabalhar e cada vez que ia ao médico, ele recomendava gelo, tintura, que isso passa, passa porque não era o pé dele mas eu… Ah, quer saber da Zelita? Pois como lhe disse a Zelita foi a grande culpada disto da unha. Quando o namoro já ia avançado, eu às vezes passava a tarde na casa onde ela vivia, aos Domingos, tudo muito moral, não pense o senhor. Bom, eu levava uns pastéis de nata e tomava café com ela, com as amigas e com a dona da casa, via a bola na televisão e pronto. Às vezes lá conseguíamos uma ou outra horita só os dois e foi numa dessas tardes, em Agosto, estava eu descalço com o calor, que ela deu em começar a cortar-me a unhas dos pés. Habituei-me áquilo, o que é que quer, e nunca mais fiz o serviço. Quando ela teve aquela pouca sorte, não cortei as unhas dos pés durante meses e o resultado foi a unha encravada, que me trouxe um grandíssima infecção. No final, isto estava já cheio de pus, não podia nem tocar no dedo, e a coisa tinha já alastrado pró pé quando o médico me receitou o antibiótico.

Se a Zelita morreu? Não sei, para mim, foi como se tivesse morrido. Almoçámos juntos numa terça-feira, deixei-a quase à porta da loja e quando a fui buscar à tarde, que íamos ao cinema, ninguém a tinha visto voltar. Perguntei na rua, às amigas, até telefonei a uma tia que ela tinha em Esposende mas nem sombra dela. Nunca mais a vi. Vou ser franco consigo, mas olhe, não ponha isto lá no jornal, sim? O problema com a Zelita foi isto de andar sempre a pensar em política. Lá nos correios, no meu posto, passavam-me pela mão muitas cartas, nem todas bem fechadas, compreende? E o salário era baixo, mal dava prós cigarros. O dinheiro pró cinema, prós pastéis que levava à Zelita, tinha que vir de algum lado, está a perceber? Acho que eles souberam da Zelita. Alguma coisa que eu disse? Olhe, passo noites a pensar nisso, a destrinçar a memória. Estragou-me a vida, acredite. E a unha? Fui operado, já mal me podia mexer, um ano depois da Zelita desaparecer.


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