Chiasmus: Philosophy and Literature / Literatura e Filosofia


As Grávidas (Vieira)
April 30, 2008, 6:16 pm
Filed under: Crónicas / Reflexions

            A mulher grávida é como uma freira. Faz num dia parte do mundo, come, bebe, diz a sua mentirinha, dá este ou aquele arroto, usa biquini nas praias, faz até talvez, quem sabe, topelesse, e, de repente, depois de uma noite mais exaltada, pumba, torna-se santa. Sim, porque a mulher grávida, mesmo maculada, não é uma de nós. Não fuma, não bebe, não toca em chocolate, evita os morangos. Drogas? Não, obrigada. E não esqueçamos os tormentos da carne. É análises – agulhas que entram e saem de diversas partes do corpo –, é a barriga a exigir posições contorcidas em camas, bancos e cadeiras, e, no final, a agonia do parto, com sangue, suor e, às vezes, lágrimas.

            Por isso, as mulheres grávidas suscitam respeito e admiração no sexo oposto. Alguns homens fogem, rabo entre as pernas, com medo delas: “E se aquilo se pega?”, “Será que têm poderes?”. Outros olham para a barriga com mal disfarçada inveja: “Porque é que eu não sou capaz de uma dessas? O que é que ela tem que eu não tenho?”. Há ainda uns, mais espirituais, que ajoelham em adoração: “A maternidade, tão bonito!”, “Ah, a origem da vida, o mistério da criação!”.

            Mas circulam para aí umas despudoradas que recusam a santidade, os enjoos, as fraldas e as noites sem dormir. Outras ainda, verdadeiras Liliths, querem a gravidez sem clausura, a canonização sem martírio. E comem um ou outro bombom, bebem o seu Porto, dão esta ou aquela passa, tudo muito “underground”. Mas Deus está lá em cima e vê tudo e nós cá em baixo não lhe ficamos atrás. Estas parceiras de Belzebu são apedrejadas na praça pública, vítimas das justa indignação dos demais: “Não compreendo como há grávidas que tocam em álcool”, dizia-me um amigo, copo de cerveja na mão. “E o fumo?”, respondia outro, apreciador do seu Marlboro, “É uma vergonha!”.

            O que estas grávidas, anjos caídos, não compreendem, é que elas não são simples mulheres. A grávida é uma serva de desígnios superiores, um instrumento nas mãos da natureza, um veículo – uma espécie de cegonha – para transportar os seres que renovarão este nosso mundo. Por isso, vivam as heroínas que aceitam o sacrifício e caiam em danação eterna as sacrílegas que, humanamente, desprezam a glória.


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